O bom partido

O comportamento estranho de Alcides começava a incomodar os presentes no enterro. Parecia perturbado, caminhava, ia e voltava entre as muitas lápides, a terra tinha lhe subido até os tornozelos e roubado seus sapatos. Um cheiro desconhecido pairava no ar.

– O que é que acontece com o Alcides? – disse Giovanna.

– Eu não sei, o tio Alcides nunca demonstrou nada do tipo – respondeu um primo.

Ocorria, até então, tudo tranquilamente na despedida do morto, porém, após o caixão ser carregado pela família e colocado no jazigo ainda fechado, foi que o tio Alcides (chamado de Dinho) esganiçou a gravata e bradou algumas palavras de ódio. Uma vergonha para o partido.

E o partido não se tratava do homem partido, mas, o homem que partiu – ou seja – o tambémpartido, fora o idealizador e fundador do próprio partido. Sim, pois aquela era uma família e um partido político, todos envolvidos desde cedo no progresso da sigla e não havia exceção. Ali parido, ali partido.

Até por isso, as mais velhas choravam e escondiam o rosto quando – dotado de grande espírito revoltoso – o tio Alcides profanou a bandeira que estava em cima do caixão com uma cuspida. E aquele foi o estopim. O grupo de policiais que homenageava o amigo morto cercou o provocador.

Confusos, os homens da lei seguraram Alcides e o arrastaram por mãos e pés, levando-o para a via que cortava o cemitério. Se não fosse pelo tenente, compadre antigo da família, eles teriam prendido o homem por desacato.

– Dinho, o que é que você tem? – disse Giovanna.

Ele tornou-se mais calmo, a mão, antes fechada e para o alto, agora enfiada no bolso. Abotoou a gola da camisa, ajeitou a boina e, confuso, disse:

– Meu Deus! Aonde é que estão os meus sapatos?

– Mas! Você andava descalço há pouco, veja as solas cheias de barro.

– Calúnia! Eu nunca faria circo em enterro de grande figura do partido!

– Pois é. E ainda catarrou no caixão.

Alcides parecia tonto, negava as acusações, mexia a cabeça, ajeitava-se, batia a poeira do terno, então pediu ao grupo de policiais que o levasse de volta ao ritual fúnebre.

– Tudo bem, Alcides. Mas prometa se comportar, ok? – disse o tenente.

Todos se lembraram da conduta exemplar do tio ao longo dos anos, então, deram-lhe uma segunda chance. Parecia tudo bem. Postado um pouco atrás dos oficiais, o homem tirou um lenço do bolso e enxugou o rosto.

Os coveiros tinham chegado e, entre os montes de terra que fechavam o buraco, parentes jogavam pertences que os faziam sentir ligados ao morto. Um selo raro, uma foto dos primórdios partidários, cartas, flâmulas e até santinhos. O susto foi geral e um tiro involuntário foi disparado quando, no meio daqueles objetos, caiu uma coisa estranha. Giovanna berrou.

– ALCIDES! MAS, PELO AMOR DE DEUS!

Novamente descalço, com os bolsos pra fora e gingando as pernas, Alcides tinha trepado na lápide vizinha. Alisava a careca e gritava.

– Até a minha peruca este verme tentou roubar! Leve contigo essa porcaria, depravado!

O tio pulou e começou a sapatear na cabeleira castanha ao chão e deslustrou mais uma vez a memória do partido, aliás, dos dois partidos. Os primos tentavam lhe agarrar, mas estava o homem em possessão perturbadora e se contorcia como louco. Parando o serviço pela metade, os coveiros olhavam o espetáculo com curiosidade. Foi quando Alcides saiu em disparada, sumindo ao longe.

Na tentativa de procurar o infeliz – fosse para lhe dar uma sova ou ajudá-lo – a família começou a circular pelo cemitério – e nisto encontraram jazigos de velhos parentes já há muito esquecidos, uma maioria de tumbas onde se viam slogans e símbolos da sigla.

– Os corpos do partido deviam estar todos juntos, representando união! – disse Silvia, a viúva do finado.

– Não diga bobagens! Embaixo da terra, que diferença faz? – disse Giovanna.

– Aonde já se viu? Os nossos serem enterrados no meio dessa gente sem procedência, no meio de uns quaisquer! Há de se elaborar um projeto para que os próximos que partirem – Deus me livre! – sejam enterrados lado a lado!

Giovanna buscou colocar aquelas palavras em algum lugar da cabeça, onde pudessem ser esquecidas. Ao encontrarem Alcides, os familiares foram carregando-o em procissão. Retornaram ao jazigo, que agora estava quase coberto pelos coveiros, e camuflaram o homem numa fila.

– Vamos continuar! – disse o tenente.

– Iauuu! Mas não vão mesmo! – disse o tio.

Ah! Lá estava Alcides, destacando-se do todo novamente e agora segurando a pá de um coveiro para que ele não trabalhasse. Brigou até tomá-la, jogou o objeto para longe e bateu palmas, satisfeito. Os outros coveiros ameaçaram-no, mas ao ouvirem o pedido desesperado de Giovanna, deram trégua ao homem perturbado.

– Terminem logo com isso, por Deus! – gritou o tenente.

Os coveiros voltaram a preencher o jazigo, mas, cada monte de terra jogado recebia de volta uma força incomum, que espirrava barro de volta aos familiares do morto. Alcides tinha se acocorado de novo na lápide, ria com os braços cruzados e desafiava a todos com um olhar adolescente. Foi quando um grupo com os mais velhos do partido tomou à frente e começou a fazer uma pequena reunião.

– É hoje que esse enterro não sai, aaaaaaaai! – dizia Alcides.

Logo Giovanna passou pelo meio da panelinha de anciões buscando explicação, saiu boquiaberta e tropeçou no próprio salto com a revelação. Um dos velhos apontou o dedo, acusando o tio amalucado e gritando palavras de ordem, que eram retrucadas por Alcides com bananas e outros gestos obscenos.

– Alcides, você não nos engana, homem! Está tomado pelo espírito do tio Genaro!

– Genaro? – disse um presente. – Mas por acaso vocês não estão falando do velho Genaro Farfarelli, estão?!

– O próprio, o próprio!

Bastou que a multidão ouvisse aquele sobrenome para que todos se transformassem em monstros.

– UM FARARELLI!

– ENTRE NÓS!

– RE-MATEM O MALDITO!

– QUEIMEM O VELHACO!

Mas não foram suficientes os protestos contra o espírito. O solo da tumba de Genaro parecia mais fértil do que o normal e se espalhou, a terra encobria os pés dos membros do partido, levando seus sapatos. Uma espécie de geleia verde subia pelas canelas. Eles começaram a ter comportamento adverso. Em vez de tristes, foram tomados por uma felicidade extrema, pulavam, festejavam e faziam passos de dança em meio aos caixões. Um vapor chorumento invadia narinas e muitos diziam que aquilo ali só podia ser enxofre, que o tal Genaro tinha pacto com Belzebu. Alcides comandava seu grupo:

– Tomem um pouco do que me deram, chauvinistas!

– Mas pra que tudo isso, Genaro?! – interrompeu Giovanna. – O que é que você ganha com isso?

– Giovanna! Mas continua uma belezoca!

– Não seja galanteador, Genaro!

– Mas foi este mentecapto que tomou você de mim!

– Continua o mesmo! Pra lá com suas bobagens!

– Teríamos sido tão felizes, Gigica!

– Eu não troquei ninguém por ninguém, Genaro. Mas, já que quer saber, direi! Eu não casei com você, porque você nunca tomava banho, estava sempre fedendo, homem!

A revelação de Silvia abalou o velho de tal maneira que abrandou suas forças. Todos riam e repetiam que seus pés fediam a queijo parmesão e seu sovaco não era menos do que uma caverna de gambás. Em coro, eles entoavam: “catinguento!”. O rosto do possuído Alcides derretia como lama, e agora a voz de Genaro dominava suas cordas vocais. “Desgraçados!”.

O tenente bolou um plano e fez sinal para os coveiros e outros que estavam fora de possessão. A turma girou os irrigadores de grama na direção do solo de Genaro e logo seu espírito esverdeado pulou do corpo de Alcides, voando alto, desviando-se dos jatos d’água. Ele sumiu entre as nuvens, os possuídos voltaram ao normal e vagavam pela grama perguntando por seus sapatos.

Os líderes do partido decidiram que o enterro jamais poderia seguir com normalidade depois de tantas contravenções, era preciso reunir a chapa e discutir muito, pois se sabia que Genaro era um tinhoso e continuaria ali, tentando profanar a memória de todos. Saíram em caravana do cemitério e reuniram-se na sede mais próxima.

Por uma hora, revisaram e leram uma série de decretos e promulgaram nova norma para tais eventos excepcionais. Agora sim, estavam prevenidos. Tudo certo, retornaram, e o enterro foi começou outra vez. O único incômodo foi que os coveiros gargalhavam ao encobrirem o caixão, pois os membros do partido, agora, despediam-se do morto equilibrados em pernas-de-pau.

A cantora gritante (Hilda Hilst)

Cantava tão bem

Subiam-lhe oitavas

Tantas tão claras

Na garganta alva

Que toda vizinhança

Passou a invejá-la.

(As mulheres, eu digo,

porque os maridos

às pampas excitados

de lhe ouvir os trinados,

a cada noite

em suas gordas consortes

enfiavam os bagos).

Curvadas, claudicantes

De xerecas inchadas

Maldizendo a sorte

Resolveram calar

A cantora gritante.

Certa noite… de muita escuridão

De lua negra e chuvas

Amarraram o jumento Fodão a um toco negro.

E pelos gorgomilos

Arrastaram também

A Garganta Alva

Pros baixios do bicho.

Petrificado

O jumento Fodão

Eternizou o nabo

Na garganta-tesão… aquela

Que cantava tão bem

Oitavas tão claras

Na garganta alva.

Moral da estória:

Se o teu canto é bonito,

Cuida que não seja um grito.

(Bufólicas – 1992)

Fonte: http://www.luso-poemas.net/modules/news/pages.php?uid=6513

Sob as lápides de Sabara

Aconteceu no dia 20 de setembro de 2013. Antes de explicar o fenômeno fantástico ocorrido naquela data, transcrevo aqui alguns trechos de jornais da época que consegui coletar em hemerotecas e coleções poeirentas de veteranos de guerra. As informações são escassas e destaquei as mais importantes, organizadas na ordem dos acontecimentos:

“Exército da síria massacra civis revoltados. Nova primavera árabe reuniu milhões de pessoas. Forças armadas não contavam com a recusa de alguns soldados em alvejar civis. Veículos de imprensa relataram por redes sociais: mais de vinte mil soldados foram fuzilados por não cumprirem ordens oficiais. Desertores foram detidos e eliminados. ONGs investigam paradeiro dos corpos. Governo esconde números oficiais. Ruas sujas de sangue e pólvora. Serão tempos difíceis, dizem astrólogos e videntes”.

Foi um conflito violento. A Cruz Vermelha anunciou a guerra civil e a imprensa avançou nas investigações. Acuado, o Exército da Síria não podia mais executar os rebeldes abertamente. O número de desertores aumentou. Eles se organizaram criando um grupo autônomo, o Exército Livre da Síria (ELS), e entraram na luta como um braço armado civil.

Porém, um traidor deixou os insurgentes nas mãos dos exército oficial. Em troca de 77 mil dólares em espécie, ele relatou em detalhes um percurso que o grupo estava prestes a realizar, que incluía uma série de levantes nos arredores das embaixadas locais. Inadvertidamente, os rebeldes se reuniram em frente ao Cemitério de Guerra de Damasco, na região de Sabara, ao sudoeste da capital. As forças armadas oficiais surgiram de repente e iniciaram o ataque com armamento pesado. Soldados livres e civis refugiaram-se dentro do cemitério.

Os fatos ocorridos depois não poderiam ser simplificados com uma descrição objetiva. A literatura mais rica utilizada como fonte sobre os acontecimentos chama-se “Entre as Lápides de Sabara”, páginas de um diário anônimo encontrado nos escombros da cidade após a guerra. As linhas a seguir são parte deste famoso manuscrito e contêm descrições e minúcias daquele dia. Algumas cenas são fortes.

“É o barulho sem fim dos fuzis e das bombas. Os clarões que mancham o céu a todo momento e a poeira grossa que brota entre prédios e mesquitas. Parece uma viagem ruim de ópio. Antes fosse. A boca dos fuzis esfumaça mais do que comunistas cubanos. O sangue espirra no ar e rastros de morte comem o asfalto. Não me pergunte sobre os motivos de eu ter feito parte do chamado ‘20/09’. As respostas podem ser vergonhosas. Primeiro: a sensação de estar no meio de uma rebelião violenta e poder matar é catártica. O segundo? Uma mulher, claro.

Sempre tive ódio do governo e queria impressionar Adara. Ela não podia sair de casa, mas dava um jeito de pendurar uma bandeira do nosso grupo na janela enquanto seus pais saíam. Quando eu passava perto do seu prédio cinza e acabado, gritava meu nome e jogava flores na rua. Meu coração batia forte e eu atirava para o alto. Berrava o nome dela também. Soldados escarneciam.

Hoje o ELS vai se reunir com a frente popular e o Jabhat al-Nusra, considerado ‘o braço armado mais violento’ entre os desertores. Alguns protestaram contra essa aliança, mas acabaram aceitando. Antes passei na casa de Adara. Ela chorava e eu não sabia o motivo. Disse que tinha medo que eu morresse. Respondi que muitas vidas estavam sendo perdidas nas ruas. ‘Eu não sou especial. Sou só mais um’. Ela me chamou de insensível. Coisa de mulher. Seus pais chegaram e tive que ir embora correndo. Beijei sua boca. Ela puxou uma corrente que eu usava no pescoço e guardou no bolso do vestido. Me mandei.

Pensei em todos os civis. Fodidos por mais de 50 anos por aqueles tiranos. Marchei com ódio na direção do Cemitério de Guerra. Olhei de longe. Que coisa mais linda. As faixas e bandeiras pretas e vermelhas tremulando. Os fuzis, machados, facas e outras armas improvisadas reluziam ao calor insuportável. O bafo dos sinalizadores, a fumaça de ervas, e os tambores rufando na multidão de guerrilheiros. Aquilo sim era revolução. Entrei no meio de todos gritando sentenças de ordem e palavrões. A mídia dizia que tínhamos arsenal ‘pesado’. Que piada! No máximo uns lança-foguetes comprados de alguns ‘mercadores’ norteamericanos. Fui saudado por alguns, socado fraternalmente por outros. Unidos, atirávamos cadenciadamente pra baixo e pra cima. Era o nosso jeito. Ali no meio, era como se eu pudesse levantar um tanque de guerra com uma mão só.

Formamos fileiras. Começamos a marchar e a cantar. Mas algo estranho aconteceu. A linha de frente demonstrou-se desorganizada, os soldados corriam em direções opostas. Nós, da cobertura, ficamos apreensivos e inseguros. O contingente virou um pandemônio. Nisso, um clarão estrondoso tomou conta do céu. Após alguns segundos de surdez e cegueira, estávamos no centro de um furacão de bombas e balas. Desgraçados! O Exército sabia do plano. Vi uma granada desmembrando um velho guerrilheiro. Me juntei a um grupo que ainda mantinha a calma. Corremos para dentro do cemitério. Que jeito irônico de escapar da morte.

Pessoas esmagavam-se na entrada principal. Pulamos os muros e os portões laterais.  A cada grito de desespero e explosão, corríamos mais. Rolei com um sujeito pra trás de uma fileira de lápides. Os campos santos e verdes tinham mais de 20 mil pequenos obeliscos. Todos de guerrilheiros mortos em diversas épocas e batalhas. Defuntos fabricados pela sanha ordinária do nosso governo e pela cobiça de nações exportadoras de armas. Vidas de jovens vendidas como almas-de-gato por uma velha pátria prostituta.

A máquina de matar do governo invadiu o cemitério com todo o seu contingente. Usaram seu arsenal mais poderoso. Covardes! Nem a Frente al-Nusra conseguiu contê-los. Homens com fuzis vinham em nossa direção. Era o fim. Nesse cenário de pesadelo, consegui enxergar um dos nossos caindo dentro de uma cova recém-aberta. Ninguém o ajudou. Ele começou a gritar em desespero. Segundos depois, seu corpo emergiu do buraco nos braços de um homem negro, seminu e com a pele completamente deformada. Vi os ossos de suas costelas à mostra, suas vísceras mofadas balançando. Levantava o nosso guerrilheiro para o alto, urrando ensurdecedoramente.

De repente, todos ficaram paralisados. Com um trovão, o céu escureceu e o sol avermelhou. As nuvens desceram, movendo-se como redemoinhos sombrios, envolvendo o cemitério. Uma revoada de abutres rabiscou pelo alto. Os pássaros agourentos pousaram ao redor dos muros, trocavam receitas. Ninguém entendia mais nada.

O Exército recuou assustado. Soldados tremiam sem condições de reagir. A cada passo para trás, mãos saíam da terra em sequência e derrubavam os militares. Uma multidão trôpega e argilosa de mortos-vivos começou a envolver o contingente, que atirava em vão para todos os lados. A carne morta dos ex-guerrilheiros sírios grudava-se em pescoços vermelhos e os rasgava. Ouvia-se gritos, murmúrios e tiros. A carcaças arremessadas voltavam a atacar viciosamente.

Resolvi sair de trás das lápides e procurar um lugar mais seguro. No caminho, um general caído na grama tinha a vísceras sugadas por um grupo de zumbis, como um ninhada de porcos na mãe. Pulei e desviei de alguns mortos. Consegui chegar em um pequeno mausoléu. Chutei a porta em desespero. As trancas podres cederam facilmente. Entrei. Lá dentro havia um oficial e um guerrilheiro, lado a lado, tremendo e reforçando as entradas. Quebrei algumas madeiras e arrastei algumas pedras para ajudá-los, mas era tarde demais. Uma multidão de corpos errantes forçava as janelas do fundo.

Um deles estilhaçou os vitrais. Era alto, corpulento e dava passadas largas na nossa direção. Vestia restos de um terno barrento. Uma pútrida bandeira nacional se arrastava aos seus pés. Ele encarou o guerrilheiro rebelde, grunhiu e passou reto. Com a pele cravejada de vidros coloridos, postou-se na frente do oficial do exército. O que restava de sua mandíbula morta abriu-se em um sorriso trágico. Cravou a fíbula quebrada no estômago do oficial e, auxiliado pelos mortos que tinham descoberto o atalho, matou e digeriu o soldado em menos de dez segundos. Depois disso, o grupo me encarou por um momento. Gelei, mas não me fizeram nada. Saíram em marcha para fora do mausoléu. Por via das dúvidas, me fechei num caixão. Ouvi mil armas dispararem até a munição acabar. Depois, dois mil uivos de dor. Então veio a calmaria. Resolvi sair dali.

Os campos estavam cheios de corpos mutilados, cápsulas de balas e fumaça. Não havia mais mortos-vivos. Caídos, pareciam ter voltado ao seu estado original, todos ao mesmo tempo. Os abutres já se encarregavam dos restos mortais oficiais. Alguns dos nossos homens subiam das covas, aparentemente vivos e comemorando alguma coisa. Os sobreviventes reuniram-se na frente do cemitério, só restavam uns 20 populares e alguns guerrilheiros do ELS. O céu começava a se abrir novamente e clarear os campos de morte. Alguns prestavam homenagens aos soldados-zumbis, rezando e fazendo penitências. Antes que os fanáticos começassem a imolação, peguei o caminho de casa.

Passei na frente do prédio de Adara. Estava completamente destruído. No meio de um quebra-cabeças confuso de cacos e telhas, vigas eretas indicavam que ali havia uma construção. Andei por cima dos restos e gritei seu nome várias vezes. Nada se mexia. Fiquei ali olhando por um tempo, chamando Adara. Revirei os entulhos e achei pertences jogados, eram louças estilhaçadas e roupas emboladas. Sentei desconsolado à beira da destruição. Lembrei do primeiro beijo que Adara me roubou. Bombas coloriram o céu. Bati em retirada”.

Cento e quarenta anos já se passaram desde o fatídico “20/09”. Embora existam muitas versões de autores oportunistas, esse foi um dos poucos relatos reais escritos sobre o evento. A Guerra Civil na Síria terminou quando um agente americano vazou informações secretas de que os EUA vendiam armas tanto para o Exército Oficial quanto para os rebeldes sírios. Além disso, o número de mortes ultrapassou a marca de um milhão, forçando a ONU e a Comunidade Internacional a realizar um jogo de cena mais incisivo. Oficializou-se o cessar-fogo no país. O Exército Livre tornou-se uma força armada sem precedentes, que organiza intromissões bélicas em conflitos do Oriente Médio. Hoje, são tão odiados pelo povo quanto o Exército Oficial era naquele tempo.

Do manuscrito “Entre as Lápides de Sabara” foram feitos livros, filmes, peças, séries e músicas. Até hoje, o evento sobrenatural influencia a cultura no mundo inteiro. Estudiosos acreditam que tudo isso não passou de um delírio coletivo regado a muito ópio. Outros dizem que não passa de folclore. Nas redes sociais, páginas sobre a Guerra Civil relembram e popularizam cada vez mais o evento com publicações incessantes. A mais popular delas conta com mais de três milhões de seguidores. No comentários, geralmente com frases de efeito e ignorância jogada a todos os lados, sempre há quem zombe do episódio ou faça piadas. No fim, os únicos isentos de culpa eram mesmo os videntes, pois os novos tempos estão sendo bem difíceis.

Suaves prestações de doce miséria

A fada cor-de-rosa apareceu no palco munida de um buquê de flores. Os porcos, loucos pela plateia, choravam pelo sangue. As rosas voaram sangrando e caíram nas bocas salivantes dos animais. A cada mordida, um peido, uma salivada cremosa em um monte de detritos anais que caíam pelo chão, subindo ao espaço em forma de cheiro dourado.

Lá fora, na carroceria de Alberto, milhares de corpos eram levados para a mesma vala comum. Eram cadáveres dos porcos inebriados pela beleza dos corpos da fada. As cabeças exalando creme de morango, homens centopéias dançando pelos riachos de creme que vazavam por furos de testa. “Não, a beleza das rosas não era para os porcos. A beleza das rosas os mata, overdose, doses cavalares e bilíngües de cirrose”.

Um homem loiro e alto, corpo desnudo como forma de protesto contra o mundo. Vai até a beira da caverna e observa a chuva de porcos e vísceras. Seu ânus, corrompido por um pedaço de bacon instalado dias atrás, chorava a morte dos irmãos transformando-se em borboleta, voando sobre os mares e atirando dardos em peixes alvos e linguarudos.

Do mar saíam espermatozóides bicolores, imensos, geográvidos e furiosos, procurando vingança contra ancas possessas além mar. Seus olhos eram de prata, hora escamosos e hora vermelhos, exceto pelas farfalhas de gorgonzola prezas aos queixos, que fediam a pizza velha. Papelão, detritos andavam pelo chão do apartamento.

Foram até a cama de Marcel, o gaúcho. Deitado com suas barbas falhas, tomou mais um gole de uísque antes de ligar para Jael, a feiticeira colombiana. Os dois tinham visitado museus e salas de música. Voaram pelos ares da cidade, pararam e fizeram sexo no telhado de uma catedral gótica. Jael namorada. Bodes “espiatórios” flutuavam perto do telhado da catedral. Catedral gótica, sem choros, sem velas, sem romances nem trelas. Era aquilo ali mesmo, um bode “espiatório” em cima de outro, fazendo dança do sexo, vendo a dupla comer pele e tomar cachaça pelas ventas. Ventania, jovem faceiro e meticuloso.

Foi naquele dia que ele caminhou pelo beco, pelas putas frouxas de canto de parede. Fui com ele, afinal, queria um béqui. Em troca da erva maldita, dei-lhe minha blusa comprida. Ele saiu fanfarreando pelas avenidas com todo aquele tamanho. Blusa enorme, ares de detetive, ratos com máscaras ajudando o pobre homem a viver a vida de armário. Ratos cinza de seriados antigos, lendas urbanas com cocaína nas cavidades anais.

Do bueiro sai a minha doce loira, cheia de canivetes enfiados no corpo. Parecia Cristo, parecia inerte na história toda. Veio mancando na minha direção, minha muffer girl. Ao mesmo tempo, imaginei aquela moça com blusas listradas, preto-e-branco, calça jeans decente e cabelo com manchas pretas. Loira falsa, falsa rubra. Queria uma dose psicótica de hóstia pura. Fomos para a catedral gótica, lá em cima, Marcel destruía o telhado em amores com Jael. A poeira caía do teto, da estufa, estufada no peito da minha puta amada, minha pura rubra.

Ela me mostrou seu colar dourado e disse que eu podia chupar seus peitos. Chupei aqueles lindos peitos sujos de manga no bico, enfiava o cordão dourado até o fim da minha garganta. Sentia ânsia, vomitava creme de manga em seus peitos e chupava de novo, até o fim. Ela virava, de quatro era mais gostoso. Comi, comi, comi, pele com pele, ovo com ovo, hóstias insalubres em forma de boceta. Bocas de vampiro voavam pelo ar, dessas de plástico. Algumas mordiam nossos corpos, sangrando até o jarro divino de urina e dinheiro dos povos passar. A gente contribuía dessa forma com a igreja. Em vez de dinheiro, dávamos nosso sêmen, nosso escarro, nossas peles e vísceras. Padre Humberto agradecia e se masturbava no plenário divino. A cada gozada divina dele, rebocava paredes, construía plataformas infernais, invernais, cagava e cuspia nossas trolhas e nossa joça nos cus dos discípulos de Deus. Deus era a infâmia.

um poema de amor (Charles Bukowski)

(Tradução: Jorge Wanderley)

todas as mulheres
todos os beijos delas as
formas variadas como amam e
falam e carecem.

suas orelhas elas todas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.

principalmente
as mulheres são muito
quentes elas me lembram a
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.

há uma aparência
no olho: elas foram
tomadas, foram
enganadas. não sei mesmo o que
fazer por
elas.

sou
um bom cozinheiro, um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar — eu estava ocupado
com coisas maiores.

mas gostei das camas variadas
lá delas
fumar um cigarro
olhando pro teto. não fui nocivo nem
desonesto. só um
aprendiz.

sei que todas têm pés e cruzam
descalças pelo assoalho
enquanto observo suas tímidas bundas na
penumbra. sei que gostam de mim algumas até
me amam
mas eu amo só umas
poucas.

algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas;
outras falam mansamente da
infância e pais e
paisagens; algumas são quase
malucas mas nenhuma delas é
desprovida de sentido; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre
são as melhores em
outras coisas; todas têm limites como eu tenho
limites e nos aprendemos
rapidamente.

todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos de dormir
os tapetes as
fotos as
cortinas, tudo mais ou menos
como uma igreja só
raramente se ouve
uma risada.

essas orelhas esses
braços esses
cotovelos esses olhos
olhando, o afeto e a
carência me
sustentaram, me
sustentaram.

Kid Thomas e os gatilhos

kidKid Thomas era o nome artístico de Louis Thomas Watts. Assim como suas músicas, sua vida também foi rápida. Fez a história. Tocou com  Muddy Waters, Elmore James e Bo Diddley. Ao fim dos anos 50, nas rasteira de Little Richard – que fazia sucesso naqueles anos de rock’n’roll primitivo e louco – lançou a música “Rockin’ This Joint To-Nite”.

Assim como na roleta russa, que geralmente não leva muita sorte ao jogador, a bala de Kid Thomas não vingou, deixando-o na sarjeta da calçada da fama. Sorte menor, à mesma época, teve outro roqueiro: Johnny Ace. Se a morte move e endossa o culto ao gênero, Ace girou o tambor da arma no camarim e achou rápido o azar. Ao mesmo tempo, Little Richard podia apertar o gatilho 2000 vezes seguidas, pois nada pararia o travesti de salto plataforma.

Mas como só os que sabem fazer bem o que fazem continuam fazendo-o, Kid Thomas continuou tocando nos bares de Los Angeles, vezes com a banda Tommy Louis and the Rythm e vezes com os Tommy Louis and the Versatiles. Ainda lançou algumas músicas nos anos 60. Pra ganhar a vida fora do palco, trabalhava aparando a grama de jardins.

Em 69, enquanto dirigia seu caminhão, Kid Thomas atropelou e matou um garoto. Acabou preso, mas foi solto após o julgamento por falta de provas. Porém, fora do tribunal, o pai do menino aguardava ansioso pelo músico – fazendo uma bala acertá-lo finalmente. Kid morreu em 1970.

70 reais a história

escultura

 

Como ganhar uma merreca no domingo, ouvir piadas de humor negro e divagar sobre deficientes mentais

Ficar quebrado é coisa do diabo. Você aceita o que vier, faz entrevista pra ser assessor até de parapsicólogo charlatão. “É pessoal, quero repercussão, só pago vocês se o SBT vier aqui gravar minhas hipnoses com o Latino”. “Cara, com licença, mas, posso ir embora?”. “Tudo bem”, respondeu no ato. No fim das contas acabei vendendo por um real em um sebo o livro que ele distribuiu pros candidatos. O cara do sebo me disse que estavam quase dando o livro na editora por dois reais. Sai no lucro, né?

Mas embora eu tenha perdido meu tempo com o hipnólogo safado e reconhecido internacionalmente, consegui um bico pro final de semana. Aplicar provas de um concurso da prefeitura numa escola pública perto de casa. Fui lá, seis da matina quase em ponto. Depois da reunião recebi meu crachá e minha função: “FISCAL VOLANTE”, ou seja, enquanto o pessoal aplicava as provas eu ficava no corredor levando e trazendo gente do banheiro, escoltando, e quando precisavam de algo como uma caneta ou um lápis, eu descia dois lances de escada e pegava.

Nunca tinha ganhado 70 reais por apenas um dia de trabalho. Lanchinho natural, refrigerante e bombom também ganhei. Mas o melhor foram as histórias que ouvi das professoras da escola. Elas estavam falando sobre crianças com DM (deficiência mental), e sobre como era difícil lidar com elas no meio dos outros alunos.

Uma das professoras tinha um jeito meio letárgico, rosto mole de argila. Resolvi apelidá-la de CARACANSADA, parodiando a personagem ANDRÉA CARACORTADA, de um filme do Almodóvar chamado Kika. CARACANSADA só falava nos tais “DMS”, era assim que ela se referia aos deficientes. A mulher dizia: “É muito difícil lidar com esses DMS, três deles detonam uma sala de 30”.

Eu só ouvia e dava algumas risadas amenas, enquanto isso, outra professora lembrava historinhas de amargar. “Tem um DM aqui na escola que fica quieto o tempo todo na sala. Aí pede pra ir ao banheiro e não volta. Vou lá buscar e pego ele atrás da porta, calado e encarando a parede. Eu digo, “vamos menino, sai daí”, “VOCÊ NÃO QUER QUE A TIA FIQUE NERVOSA, QUER?”. Parece que depois deste último aviso o menino acabava voltando pra sala com passos bem lentos, andando meio largadão.

“E outro então, dorme na sala e acorda todo mijado. Aí a gente tem que chamar a mãe pra levar embora”, lembrou uma outra. Mas o épico ficou por conta de CARACANSADA. Disse ela: “gente, um menino voltou do banheiro com um cheiro horrível, de cocô, sabe? Aí quando fui levar ele no banheiro vi que tinha passado fezes pelas paredes, pintou a parede toda”. Todos ficaram atônitos, mas ela nos acalmou: “CHAMAMOS A MÃE DO GAROTO PARA LIMPAR”. “Como assim a MÃE do garoto?”, disse a moça ao meu lado. “É, se a gente não chama pra limpar, ela não acredita que o filho PINTA A PAREDE DE MERDA, HAHAHAHAHA”.

Aí começou uma infinita variação de piadas e comentários. “O quê?? Pintava a parede de merda??”, “Isso mesmo, menina, um cheiro horrível!” “Hahaha, com diarréia só dá pra fazer isso, né? Imagina se ele cagasse duro, ia fazer esculturas, HAHAHA”. (Confesso que desta eu também ri). “O pior são os DMS disfarçados, tá cheio de psicopatinha enrustido nessa escola”.

Ao fim do trabalho, depois de subir e descer as escadas umas 500 vezes, peguei meu pagamento de Fiscal Volante e peguei o caminho da roça. Fiquei pensando sobre todas aquelas histórias e não sabia se ria ou chorava. Na verdade, eu não choraria por aquilo, mas deveria. Seria o melhor a ser feito. Não fui pra casa, fiquei caminhando e acabei no meio do Parque da Juventude. No meio de um gramado extenso, vi a escultura de uma criatura redonda com patas, que parecia estar vomitando. Na verdade, parecia uma merda gigante com três patas de aranha, vomitando mais um monte de cocozinhos na grama. Um pessoal tirava fotos ao lado…